Pessoas ajudam pessoas a dissipar o medo


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Ontem foi feriado de Corpus Christi e também Dia Mundial da Bicicleta. Foi também o dia em que coloquei a Rádio Pedalentos no ar, um projeto que nasceu em 2014 e só agora saiu do campo das ideias. 7 anos e passaram e muita coisa mudou nesse tempo. Hoje dou continuidade ao meu relato sobre a viagem pela Índia em 2018. No texto anterior, estava falando sobre minha volta pra casa depois de uns dias na casa da minha família.

“Depois de uns dias de cuidado da família, voltei pra casa pois estava pra chegar um amigo que havia passado para mestrado no Rio e ficaria uns dias na minha casa até conseguir alugar um espaço. Solano, de Maringá, não veio por acaso.”

Solano, de Maringá, de óculos e no centro da imagem, chegou para passar uns dias até alugar um apartamento. Ele iria passar um ano e meio no Rio por conta do mestrado e me pediu um abrigo por uma ou duas semanas. Desse modo, eu já não estava mais sozinho em casa e passei a ter visitas frequentes de amigos e amigas, colegas de trabalho e vizinhos. Sempre soube que pessoas ajudam pessoas a dissipar o medo, mas agora estava vivendo na prática.

Estava enfrentando muitos medos, o maior deles de não voltar a caminhar, pedalar e também de identificar uma doença degenerativa do sistema nervoso, como os especialistas desconfiavam. Haviam inúmeras possibilidades de diagnóstico, entre elas Miosite, Síndrome de Guillain-Barré e a que eu menos acreditava, que poderia ser uma questão emocional.

Foi a primeira vez na minha vida que vivi uma questão de saúde que me deixava preocupado de verdade. Durante esse período, diversas pessoas caminharam comigo, algumas mais próximas e outras que me surpreenderam. Teve gente fazendo feira, me ajudando com a casa, vizinhos compartilhando comidas, lanches. Agradeço especialmente à família Daguerre, vizinhos que estiveram comigo durante todo meu processo e se tornaram mais que amigos.

GatoLento estava sempre por perto. Aliás, quem tem bicho em casa sabe o poder que eles têm.

Recebi uma foto de um amigo de longa data, que escreveu uma mensagem no verso. Eu te incentivo fortemente a escrever um bilhete, uma carta, enviar um postal para alguém que está enfermo, esse gesto gentil tem o poder de fazer muito uma pessoal. Eu vejo muito mais força num bilhete no papel, num postal, do que uma mensagem no Whatsapp. Valeu João!

Ronaldo também esteve lá em casa para buscar LPs que coloquei para doação. Entre café e boas conversas sobre música, a vida seguia e os exames continuavam sem diagnosticar o que estava acontecendo comigo.

Agora corta pra 21 de janeiro, Índia. Arunachala, a montanha de Shiva. Eu estava lá pra subir ao lado do meu amigo-irmão Sandro Shankara no dia do seu aniversário. Apesar do peso extra, estava me sentindo forte e bem disposto para fazer a caminhada até o cume. Todavia eu parei no meio na montanha e não consegui subir. Eu sentia que meu corpo estava firme, as pernas, tudo, mas algo me puxava para baixo e sentei. Liberei o grupo e permaneci sentado numa pedra sem entender o que estava acontecendo, ali fiquei por quase uma hora até que resolvi descer e desistir do ataque ao cume.

Chutei pedras, reclamei comigo, questionei Deus, eu queria subir, eu fui ali pra isso. De todas as regiões que visitei do Norte ao Sul da Índia, Arunachala era o lugar que eu não queria deixar de estar, de conhecer, de vivenciar a montanha.

Durante a descida, eu havia desistido de lutar contra a força que me fez ficar sentado por mais de uma hora, parei para comprar um artesanato. Eu já havia conversado com o artesão quando passei por ele na subida e ele me reconheceu e perguntou por que estava voltando sozinho e se havia desistido de subir. Eu desconversei, perguntei sobre como ele fazia as peças, sobre a vida dele. Com um sorriso e ar leve ele me disse as seguintes palavras: “Quem tem coração de pedra não chega no cume e Shiva sabe da sua vida e pode ser que você tenha que resolver algumas coisas para conseguir subir”. Eu não gostei o que ele disse, bateu uma certa raiva. Comprei a peça e segui meu caminho.

Depois de caminhar um pouco mais, fui parado por uma turista perguntando se faltava muito para chega ao cume. Eu disse que tinha voltado do meio do caminho e desejei boa caminhada. Naquele momento um filme começou a passar por minha cabeça, aquela mulher se parecia muito com uma pessoa que havia me magoado, uma pessoa da minha família. Fui tomado pela ira e esbravejei ao céus reclamando que se aquele episódio estava me privando de chegar ao cume era um absurdo. Eu havia sido ofendido, fiquei magoado, eu merecia um pedido de desculpas, aquela pessoa tinha que se retratar comigo. Era injusto ser privado de fazer algo por conta daquela situação, afinal, haviam anos que o episódio tinha acontecido e eu tinha “apagado ele da minha vida”.

Foi aí que sentei de novo numa pedra. Dessa vez pra chorar. Nesse momento uma mensagem foi soprada nos meus ouvidos: “Fábio, eu sei que você foi ferido, magoado, eu sei. Você tem razão quando diz que aquela pessoa deveria vir até você, se desculpar, eu sei. Mas tenho que te dizer uma coisa, a porta que precisa ser aberta para isso acontecer, só você tem a chave, eu mesmo te dei. A outra pessoa não tem, nem a chave nem a sabedoria necessária para usar”.

Continua no próximo texto.

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